Datafolha expõe o que o PT não conseguiu construir no DF após 12 anos fora do Buriti

Desempenho de Lula e Leandro Grass nas pesquisas revela dificuldade histórica do partido em transformar presença nacional em força eleitoral no Distrito Federal

Foto: Foto: Ricardo Stuckert

A nova rodada do Datafolha no Distrito Federal acendeu um sinal de alerta para o PT. Mais do que uma fotografia da eleição de 2026, os números ajudam a revelar um problema que se arrasta há mais de uma década: o partido perdeu espaço político na capital do país e ainda não conseguiu reconstruir uma candidatura local capaz de disputar o Palácio do Buriti em condições de igualdade com seus principais adversários.

Na corrida presidencial, Flávio Bolsonaro (PL) aparece com 39% das intenções de voto no DF, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) registra 31%. Em uma simulação de segundo turno, a distância aumenta: Flávio chega a 51%, contra 39% de Lula. A pesquisa ouviu 910 eleitores entre 18 e 21 de agosto e tem margem de erro de três pontos percentuais.

O problema para o PT fica ainda mais evidente quando a disputa nacional é comparada à realidade local. Enquanto Lula continua competitivo nacionalmente, no Distrito Federal sua avaliação positiva é de 27%, enquanto 51% classificam o governo negativamente, segundo o Datafolha.

Os números levantam uma pergunta que o partido terá de responder: o que o PT deixou de fazer no Distrito Federal ao longo dos últimos 12 anos?

PT não conseguiu reconstruir uma liderança para o Buriti

A última vez que o partido comandou diretamente o Governo do Distrito Federal foi na gestão de Agnelo Queiroz. Em 2014, tentando a reeleição, Agnelo sequer conseguiu chegar ao segundo turno, disputado por Rodrigo Rollemberg e Jofran Frejat.

A partir daquele momento, o PT entrou em um longo período de dificuldade nas eleições majoritárias locais.

Em 2018, Júlio Miragaya, candidato do partido ao GDF, recebeu apenas 4,01% dos votos válidos. Na mesma eleição, Ibaneis Rocha apareceu como força política emergente, terminou o primeiro turno com 41,97% e posteriormente foi eleito governador.

Quatro anos depois, houve uma melhora expressiva. Leandro Grass, então filiado ao PV e apoiado pela federação formada por PT, PV e PCdoB, terminou a eleição de 2022 em segundo lugar.

Grass recebeu 26,25% dos votos válidos, enquanto Ibaneis foi reeleito no primeiro turno com 50,30%.

O crescimento, entretanto, não se consolidou.

Agora filiado ao PT e novamente candidato ao GDF, Grass aparece com 11% no Datafolha de agosto de 2026. Celina Leão (PP) registra 30% e José Roberto Arruda (PSD), 28%, em situação de empate técnico entre os dois primeiros colocados.

Presença no governo federal não virou força local

Esse talvez seja um dos maiores desafios do PT brasiliense.

Brasília é o centro administrativo do governo Lula. Ministérios, empresas públicas, órgãos federais e boa parte da estrutura política do Planalto estão concentrados no Distrito Federal.

Ainda assim, a presença institucional do partido no governo federal não se transformou automaticamente em apoio eleitoral no DF.

A dificuldade não é nova.

Em 2018, Jair Bolsonaro recebeu 69,99% dos votos válidos no Distrito Federal no segundo turno presidencial, enquanto Fernando Haddad, candidato do PT, ficou com 30,01%.

Agora, oito anos depois, o Datafolha mostra novamente um candidato ligado ao bolsonarismo à frente do PT entre os eleitores brasilienses.

Isso indica que o problema do partido vai além da escolha de um nome para governador. Existe uma dificuldade mais ampla de comunicação e conexão com parcelas importantes do eleitorado local.

Faltou construir uma alternativa local com identidade própria

Outro ponto exposto pelas pesquisas é a dificuldade do PT de transformar sua estrutura partidária em uma candidatura majoritária com força própria.

O partido possui lideranças conhecidas e mantém representação parlamentar no Distrito Federal. Erika Kokay, por exemplo, foi eleita deputada federal em 2022 com 146.092 votos, enquanto Chico Vigilante foi novamente eleito deputado distrital.

Ou seja: existe eleitorado de esquerda no DF.

O problema aparece na hora de transformar essa base em maioria numa eleição para governador.

Desde 2014, o PT não conseguiu apresentar uma candidatura própria que chegasse perto de vencer o GDF. Seu melhor desempenho recente ocorreu justamente em 2022, com Leandro Grass ainda filiado ao PV e liderando uma frente de partidos de esquerda.

A eleição de 2026 deveria representar a consolidação daquele crescimento. Até agora, ocorreu o contrário: os 11% apontados pelo Datafolha colocam Grass muito distante dos dois líderes.

PT precisa descobrir por que seu eleitorado não cresce no DF

É cedo para transformar uma pesquisa de agosto em resultado eleitoral. Campanhas começam efetivamente a alcançar o eleitorado, debates podem mudar percepções e os percentuais ainda podem oscilar até outubro.

Mas o Datafolha apresenta ao PT um problema que não pode ser explicado apenas pela conjuntura de 2026.

São três eleições consecutivas para o GDF desde a derrota de Agnelo em que o partido ou seu campo político não consegue chegar ao Buriti.

O desafio, portanto, não parece ser simplesmente encontrar um novo slogan ou aumentar a exposição de Leandro Grass.

O PT precisa entender por que, mesmo comandando novamente o governo federal e tendo lideranças tradicionais no Distrito Federal, continua encontrando dificuldades para ampliar sua base eleitoral na capital.

Os números de Lula e Grass mostram duas faces do mesmo problema.

No cenário nacional, o presidente continua competitivo. No DF, aparece atrás de Flávio Bolsonaro. Na disputa pelo Buriti, Grass está muito distante de Celina Leão e Arruda.

A pesquisa não determina como terminará a eleição de outubro. Mas deixa uma constatação política difícil de ignorar: 12 anos depois de perder o Governo do Distrito Federal, o PT ainda não encontrou o caminho para reconstruir a força que um dia teve na política brasiliense.