A Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEEDF) recebeu, na terça-feira (5), um grupo de professores-pesquisadores de diferentes estados brasileiros para uma agenda de intercâmbio pedagógico promovida pela Rede de Trocas de Educação Integral, iniciativa do Ministério da Educação (MEC).
O principal destaque da programação foi a apresentação do projeto “Quando as palavras criam o mundo: oralitura e identidade nos anos iniciais”, desenvolvido no Centro de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente (Caic) Professor Benedito Carlos de Oliveira, em Brazlândia, onde a visita ocorreu. A proposta idealizada pelo coordenador do Caic, Antônio da Silva Junior, resgata metodologias de ensino do povo iorubá, grupo étnico africano que compõe a cultura afro-brasileira.
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Aplicado aos estudantes do Ensino Fundamental I, o projeto utiliza narrativas orais conhecidas como itans, histórias tradicionais da cultura iorubá que abordam valores como justiça, honestidade e respeito. Durante as atividades, os discentes escutam atentamente os relatos feitos pelo professor, refletem sobre os ensinamentos e, posteriormente, reescrevem as histórias a partir de suas próprias vivências.
Para conhecer mais sobre a iniciativa, participaram representantes do Rio Grande do Norte, Maranhão e Pernambuco, todos envolvidos em projetos reconhecidos nacionalmente por práticas de excelência em educação integral em tempo integral. O encontro teve como objetivo fortalecer políticas públicas voltadas à educação integral, além de promover a troca de experiências entre redes de ensino de diferentes regiões do país.
Resposta às demandas pedagógicas
O docente Antônio da Silva Júnior explicou que a proposta nasceu como uma resposta prática às demandas pedagógicas e sociais identificadas na unidade. “Tínhamos um índice muito baixo em proficiência de leitura e escrita, principalmente na escrita, por conta ainda das dificuldades da pandemia. Ao mesmo tempo, precisávamos responder à legislação vigente e enfrentar a tendência que a escola tem de tratar culturas não hegemônicas como menores. O projeto nasce para resolver essas questões”, afirmou.
Ao abordar o conceito de itã, base da proposta pedagógica, o professor ressaltou a importância da oralidade como forma de preservação da memória e da identidade cultural do povo iorubá. Antônio observou que, historicamente, essas narrativas foram reduzidas apenas ao campo da mitologia africana, o que contribuiu para o seu afastamento dos espaços escolares.
“A palavra itã significa narrativa, história. A função do itã é guardar a memória de um povo, mostrar a compreensão de mundo desse povo. É isso que mantém viva a identidade da minha comunidade e diz quem eu sou. No Brasil, essas narrativas foram vistas apenas como mitologia africana e, muitas vezes, associadas apenas à religião, enquanto outras mitologias são aceitas normalmente na escola”, pontuou Antônio.
Dessa forma, a nova metodologia desenvolvida pelo educador busca fortalecer habilidades de escuta, interpretação e escrita, além de ampliar o repertório cultural dos alunos. A iniciativa também valoriza a oralidade como ferramenta pedagógica e elemento de construção da identidade cultural afro-brasileira.
Resultados positivos no desempenho dos estudantes
A experiência apresentou avanços significativos no desempenho dos discentes ao longo de 2025. Entre abril e outubro, período em que o protótipo do projeto foi aplicado às turmas do 5º ano, houve aumento expressivo nas notas dos participantes. A média das turmas envolvidas passou de 3,3 para 8,1, resultado que motivou a ampliação da proposta para todos os alunos do fundamental I, entre 6 e 11 anos de idade.

