O ano de 2026 marcou um momento histórico para a educação superior brasileira com a titulação de Iury Moraes Eminergídio, reconhecido como o primeiro mestre surdocego da UnB. A conquista representa um avanço expressivo na inserção e na produção científica de pessoas com surdocegueira no ambiente universitário, coroando uma jornada acadêmica iniciada em 2016 na própria instituição.
Trajetória e financiamento da pesquisa
O acadêmico finalizou o mestrado profissional em educação pela Faculdade de Educação da Universidade de Brasília. O percurso foi viabilizado por meio de uma bolsa de estudos concedida pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), financiada pelo Programa Permanente de Desenvolvimento da Pós-Graduação (PDPG), que fomenta a formação de mestres e doutores na região.
A dissertação intitulada O saber na experiência do trabalho com pessoa surdocega: uma escrita autobiográfica teve a orientação da professora Liège Kuchenbecker. O estudo fundamenta-se nas vivências do próprio autor para analisar temáticas como acessibilidade, métodos educacionais, capacitação de docentes e a inclusão social desse grupo.
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“Significa ser aceito, ser acolhido pela comunidade surdocega e pela família, me tornar um profissional capacitado e ter disposição para lutar”, afirma Iury.
Metodologia e desafios na pós-graduação
Utilizando a autobiografia como ferramenta de investigação científica, o pesquisador examinou os obstáculos e as táticas de aprendizado desde a educação básica até o ensino superior e o mercado de trabalho. O texto original da dissertação foi estruturado em Língua Brasileira de Sinais (Libras) e, posteriormente, vertido para o português escrito como segunda língua, debatendo tecnologias assistivas e o papel fundamental dos guias-intérpretes.
A rotina de estudos exigiu adaptações logísticas complexas. O pesquisador precisou gerenciar horários no laboratório de Libras, assegurar a presença de guias-intérpretes e estender o período dedicado à leitura de materiais densos. O processo envolveu a gravação de vídeos com auxílio de monitora e orientadora para estruturar o conteúdo final, demanda que muitas vezes avançava para o ambiente doméstico com a ajuda da mãe.
O suporte financeiro da FAPDF foi determinante para garantir a permanência no curso, custear deslocamentos, despesas com acessibilidade e viabilizar a participação em eventos científicos fora de Brasília, como o Congresso das Apaes em Minas Gerais, além da Semana Universitária da UnB e da Conferência Nacional de Libras.
Perspectivas futuras e impacto acadêmico
Com a titulação concluída, os objetivos do pesquisador incluem atuar diretamente na capacitação docente.
“Gostaria que os professores entendessem que as pessoas surdocegas têm condições de aprender e se desenvolver”, enfatiza Iury. “Quero trabalhar na formação desses profissionais, com cursos e estratégias que ajudem a pensar na pessoa, e não apenas no diagnóstico.”
Além de planejar futuras investidas em um programa de doutorado, o recém-mestre demonstra que a permanência estudantil vai além do acesso às salas de aula, exigindo suporte adequado para que a produção de conhecimento reflita a real diversidade da sociedade.

