Congolês leva Lumumba para a Copa e celebra legado do pan-africanista

Congolês leva Lumumba para a Copa e celebra legado do pan-africanista

Imóvel durante a partida, o congolês leva para os estádios da América do Norte a mesma pose da estátua de Lumumba instalada em Kinshasa, a capital do país africano.

Mesmo ausente no restante da Copa, o ex-padeiro e torcedor já passou o seu recado, ao rememorar o legado de Lumumba e representar a insurgência dos povos africanos, na avaliação da coordenadora do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo, Maria do Carmo Rebouças, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFRB).

Para ela, a performance Lumumba Vive é “um gesto simples que carrega todo o continente” e, por isso, o artista coleciona fãs.

Maria do Carmo acredita que, com a performance, Mboladinga conseguiu ainda deslocar o futebol do campo do entretenimento para o da reflexão sobre o legado do passado colonial.

“Esse fã sustenta uma imagem silenciosa, mas com grande peso: a de que o Congo não esqueceu, a de que África não esqueceu, e a de que a independência política, sem soberania econômica e no modo de pensar, é inconclusa”, explicou, em entrevista à Agência Brasil.

O professor de História da África da Universidade Federal Fluminense (UFF) Felipe Paiva acrescenta que Mboladinga também reverencia outras histórias de luta anticolonial no continente africano.

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Guerra esquecida

“Essa mensagem alerta o mundo sobre o que o Congo está passando”, observa o professor de História da África da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o angolano Nuno Carlos de Fragoso Vidal. “Esta é uma guerra esquecida, com milhares de mortos ao longo de anos, muita ingerência externa, pilhagem e descaso da comunidade internacional”.

Quem foi Lumumba?

Até hoje, o país sofre com guerras internas em torno dessas riquezas, o que agrava crises como a do ebola, e mantém a população na pobreza. Para participar da Copa, a delegação congolesa precisou ficar em quarentena por causa do surto da doença.

Após pressão, em 2022, a Bélgica reconheceu a “responsabilidade moral” no crime e devolveu à família de Lumumba um dente com coroa de ouro, guardado por um policial como relíquia.

Responsabilidade de Bélgica, Brasil e EUA

A Bélgica tem uma longa história de dominação no Congo, que data dos anos 1880, quando o Rei Leopoldo II governou o país como um feudo pessoal, assassinando e mutilando deliberadamente quem se opusesse ao enriquecimento da família real.

Pelos anos de dominação e pelos crimes, o professor da UFRJ defende que o país europeu, como reparação, deveria trabalhar pelo fim das guerras na ex-colônia.

Por terem recebido um grande número de pessoas negras, Brasil e Estados Unidos também deveriam se juntar contra o legado da colonização em África, argumenta o professor.

“Países formados pela diáspora, onde essas comunidades têm peso, têm a obrigação moral de pautar essa agenda, de tentativa e solução para os problemas do continente”, avaliou. “ E o Congo é um dos casos mais dramáticos hoje”.

Seleção da República Democrática do Congo – Reprodução/X

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Fonte: Agência Brasil